Se está na internet é verdade

Umberto Eco dizia que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.

Dois fatos que acompanhei pelas redes sociais me motivaram a escrever a coluna de hoje. O primeiro foi a repercussão da passagem da judoca Rafaela Silva por Mogi Mirim. Medalha de ouro na Rio 2016, ele esteve no Ginásio do Tucurão e ministrou uma oficina com algumas crianças. O que me surpreendeu foi o número de pessoas reclamando no Facebook da falta de divulgação do evento.

De fato, o Tucurão estava longe de ter o público que Rafaela merecia. O horário (plena tarde de uma quinta-feira) certamente contribuiu para isso. Mas o argumento da falta de divulgação se sustenta? Ora, a mídia impressa local deu ampla cobertura ao assunto. Falo por A Comarca, que publicou ao menos três reportagens. Outros jornais agiram no mesmo sentido. No rádio, o programa do Gebê comentou o evento a semana toda. A imprensa fez sua parte.

Mas sabe o que ganhou a atenção do povo nas redes sociais? O segundo motivo que me levou a escrever estas linhas: a “notícia” de que um justiceiro mascarado agiu com as próprias mãos e matou 20 bandidos aqui em Mogi Mirim. A informação, que não passa de uma óbvia mentira, vem circulando desde o final de semana passado.

E muita gente acreditou, mesmo nenhum veículo de comunicação tendo repercutido o caso. Detalhe: ao abrir o link da “notícia” que foi compartilhado no Facebook, o internauta simplesmente não encontra outras informações ou fotos no site fantasioso, apenas o título, o que já entrega o boato. Isso leva a uma assustadora conclusão: as pessoas acreditaram na “reportagem” sem ler o conteúdo. Apenas a manchete bastou. Sintomático, não é?

Nossa “Geração Facebook” é preguiçosa. Não é adepta da leitura. E se não se dá ao trabalho sequer de ler uma notícia, obviamente não irá pesquisar a veracidade dela. Terreno fértil para a disseminação de notícias falsas, como a do justiceiro mascarado. Não por acaso, o departamento da universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários escolheu o termo “pós-verdade” como a palavra do ano de 2016. Seu significado: um adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. A boa e velha falácia, sem compromisso com a verdade.

Um exemplo? Donald Trump, a pós-verdade em pessoa. Durante a campanha eleitoral norte-americana, o republicano afirmou que a adversária Hillary Clinton criou o Estado Islâmico, que o ex-presidente Barack Obama era muçulmano, que o desemprego nos EUA chegava a 42% e que o papa Francisco apoiava sua candidatura. Nada disso era verdade. Mas não importava, pois o apelo emocional dessas mentiras junto ao público era maior que o desgaste por propagá-las.

O mesmo Donald Trump é campeão em tentar rebaixar a imprensa. Apelidou os veículos de comunicação que fazem oposição a ele de “fake news” (notícia falsa, em tradução livre) e está em constante pé de guerra com os repórteres que cobrem a Casa Branca. Há uma lógica nisso tudo: o falastrão precisa desacreditar os jornais para que apenas a sua pós-verdade prevaleça, sem contestação. Não preciso nem dizer que o “fake news” pegou entre os reacionários brazucas, que utilizam o termo para atacar a mídia sempre que encontram uma notícia ou opinião com o qual não concordam.

E o que pós-verdade tem a ver com o justiceiro mascarado e a Rafaela Silva? Tudo. Porque boa parte das pessoas que reclamaram da falta de divulgação do evento envolvendo a judoca tem condições financeiras de assinar pelo menos um jornal impresso local. As que não tem, podem acompanhar as notícias pelos sites ou pelo rádio. No entanto, preferem se informar por redes sociais, acreditando em boatos e deixando passar a informação que realmente importa. Claro que a imprensa não é dona da verdade e ainda pisa muito na bola, mas é o que temos de mais confiável quando o assunto é fonte de informações.

Umberto Eco dizia que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis. Mais que isso, eu diria que deu voz a um bando de oportunistas que espalham suas mentiras e contam com a falta de senso crítico da “Geração Facebook”. Daí surgem as notícias e correntes das mais absurdas, envolvendo desde o confisco da poupança até a disseminação de doenças letais. E todo mundo acredita. Afinal, se está na internet é verdade.

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O falastrão Donald Trump popularizou o termo “fake news” contra a imprensa norte-americana

(Foto: The Washington Post/Getty Images)

Publicado no jornal A Comarca em 4 de março de 2017

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