Empreendedorismo como vocação

A trajetória bem sucedida de Antonio Carlos Bernardi, o Lilo Bernardi

É no mínimo curioso que o dono da única sala de cinema da cidade de Mogi Mirim (a 70 km de Campinas) pareça ter saído diretamente dos estúdios de Walt Disney. Com cabelos brancos, olhar manso, fala tranquila e usando suspensórios, o empresário Antônio Carlos Bernardi, ou simplesmente Lilo, lembra Carl Fredricksen, de Up!. Mas poderia muito bem ser comparado a outro personagem: o Rei Midas, da mitologia grega, que transformava em ouro tudo o que tocava.

O começo, porém, não foi com ouro. Foi com solda. O primeiro emprego, aos 14 anos, foi para bombear o fole de uma máquina de soldagem. Mas em poucos anos Lilo passaria de empregado a patrão. Não tinha nem 20 anos quando adquiriu a Padaria Guarani. “Tive que ser emancipado”, recorda. E logo investiu em publicidade. “Eu sempre achei que a coisa do negócio fosse a divulgação”.

O primeiro investimento foi a doação de um banco patrocinado à cidade, com a marca da Padaria Guarani. Observador, Lilo notou, porém, que o banco sempre permanecia vazio. “Achei que fiz um mau negócio”, conta. Acontece que as frondosas figueiras que ficavam logo atrás do banco atraíam muitos passáros, que acertavam em cheio quem ousasse se sentar por ali. “E naquele tempo se usava terno de linho. Imagine só!”, lembra entre risos.

E “naquele tempo”, Juscelino Kubitschek estava prestes a ser eleito presidente da República, a Bossa Nova dava seus primeiros passos, a televisão começava a entrar nos lares brasileiros. Tempos promissores estavam por vir e o jovem empresário mogimiriano sabia disso. Não é a toa que se considera um homem de “muita visão”. É assim até hoje. Por isso apostou na modernização do cinema mogimiriano, prestes a receber equipamentos de “última geração” para competir com o shopping concorrente.

“Comecei a sentir o progresso pela Champion (atual Internacional Paper), começou a aparecer muita gente”, conta. A fábrica de papel e celulose havia acabado de se instalar na vizinha Mogi Guaçu. Era o ínicio dos anos 1960 e Lilo, enxergando o potencial, tratou logo de investir no negócio e comprar um moderno forno “super vulcão”, um dos únicos do estado de São Paulo na época.

Como estava sempre um passo à frente, não demorou para dominar o mercado local. “Cheguei a desmanchar mil quilos de farinha por dia!”, relata. E como manter a liderança? Publicidade! A Padaria Guarani se fazia presente no dia-a-dia do mogimiriano com as propagandas veiculadas na rádio Cultura FM. “Comprava todos os horários de sexta e sábado”, afirma Lilo.

Aí surgiu um problema. Dinheiro não cai do céu, mesmo para um bem-sucedido empresário, e os investimentos em publicidade radiofônica estavam altos. A solução? Simples. Comprar a própria rádio. Assim nasceu a Cidade Mogi FM, futura rádio Alvorada. A inspiração para o nome veio da residência oficial dos presidentes brasileiros, o Palácio da Alvorada, inaugurado em 1958.

A alvorada de Lilo Bernardi veio mesmo nos anos 1970, quando negociou a rádio e a padaria e ganhou na loteria. Na verdade, abriu duas casas lotéricas em 1971, uma em Mogi (de nome Alvorada) e outra em Campinas. Tirou a sorte grande. As lotéricas atraiam apostadores de várias regiões do estado e do Sul de Minas. “Cheguei a ter 26 funcionárias”, orgulha-se. Em 1975, formou-se em Direito. Mas o Dr. Antônio Carlos Bernardi não exerceu a profissão por muito tempo. “Demorava muito pra ganhar dinheiro”.

Já em 1978, decidiu inaugurar a imobiliária Alvorada. Começou com 15 imóveis (todos de sua propriedade), mas o negócio chegou a ter 500 casas. Acabou sendo seu próprio corretor e comprou sua primeira propriedade rural. Lá, surgiu mais um empreendimento. Uma destilaria que mantém até hoje. “Mas não faço questão de vender cachaça, não. Só se me procurarem lá, daí eu vendo”.

Outra passagem bem-sucedida de Lilo Bernardi foi na presidência do Grêmio Mogimiriano. “Recebi o clube com portas de maderite”. Deixando a modéstia de lado, diz que transformou o Grêmio “num clube majestoso”. A chamada domingueira, segundo Lilo, chegou a colocar 1,8 mil pessoas dentro do Grêmio, gente até do Rio de Janeiro. “O charme de Mogi Mirim era as meninas esperarem o domingo”.

Como homem de “muita visão”, Lilo não pode deixar de notar, durante uma viagem para Espírito Santo do Pinhal no final da década de 1980, um carro diferente de todos os que já havia visto. Linhas retas, ar despojado. Era um carro da Gurgel Motores S.A., a única fabricante brasileira de automóveis da história. O empresário não teve dúvidas. Mudou seu destino e partiu em direção à São Paulo. Com o interesse de vender os automóveis da marca, Lilo negociou na capital paulista a abertura de duas concessionárias no interior. Surgiram em 1988 a Bernardi Veículos em Mogi Mirim e a Lilo Veículos em Campinas.

Na década de 1990, durante uma estadia no parque D. Pedro II, em Portugal, uma castanha portuguesa caiu na cabeça do mogimiriano. Se com a queda da maçã Newton descobriu a gravidade, com a queda da castanha Lilo descobriu a agricultura. “Daí eu olhei (para a castanha) e falei: „poxa, eu vou plantar isso aqui‟. Quando vi tinha dois mil pés”.

O setor rendeu bons frutos ao empresário. “Eu queria plantar coco, contratei pesquisadores para avaliar as condições da cidade. Eles me disseram que Mogi Mirim não dá coco. Mas disseram que dá palmito”. Resultado: nada menos que 13 mil pés de palmito e uma fábrica de embalar o alimento. A lichia também despertou o interesse de Lilo, que se tornou o segundo maior produtor da fruta no estado de São Paulo. Sua última produção, de 80 toneladas, chamou a atenção da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo(Ceagesp), interessada na compra.

Como troféus, potes de palmito e cartazes de lichia estão na sala de Lilo Bernardi, no prédio onde funciona o Center Cine. O cinema, no entanto, ainda não é a última cartada do empresário que, no alto de seus 78 anos, está empenhado na ambiciosa construção de um grande spa para idosos. O motivo de encarar tantos empreendimentos em tantas áreas diferentes nem o próprio Lilo sabe ao certo. “É dom”, aposta, enfim.

Uma coisa é certa. No fim das contas, Lilo rejeita o rótulo de que seja uma espécie de Midas. Todos os seus passos foram muito bem avaliados. “É cabeça, é responsabilidade. E não pode ter medo. Sempre atirei alto”, afirma. “Só tenha confiança em si mesmo”.

Por Flávio Magalhães

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