Violência nas escolas reflete “doença social” em Mogi Mirim

O índice de professores da rede estadual que relataram agressão física em Mogi Mirim chega a 43%.

Os números assustam. O índice de professores da rede estadual de ensino que relataram agressão física de alunos contra docentes nas unidades escolares da cidade de Mogi Mirim chega a 43%. Quando se trata de agressão verbal, o número salta para 81%. Os dados são do questionário da Prova Brasil, aplicada em todo o território nacional.

Para comparação, a média de agressão física a professores no estado de São Paulo fica em 12%. No Brasil não passa de 9%. Quando se fala em agressão verbal, São Paulo registra uma média de 58%, o país, 54%. Isso significa que, em se tratando, por exemplo, de violência física, Mogi Mirim tem quase cinco vezes mais ocorrências que a média nacional.

Parte desses casos chega ao Conselho Tutelar da cidade, “Mas não chega tudo, alguns casos são resolvidos dentro da escola”, explica a conselheira Leila Feracioli Iazzetta. Teoricamente, a instituição é acionada em último caso, já que as escolas estaduais possuem professores-mediadores que devem solucionar os conflitos no ambiente escolar.

“O Conselho é a porta de todos os casos, é aqui que a gente vai distribuir”, afirma o coordenador Luiz Carlos Pinto. É do Conselho Tutelar que parte o encaminhamento das ocorrências para órgãos como o Centro de Referência de Assistência Social (Cras), o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e até o Ministério Público. E é exatamente aí que começa outro problema.

“Falta suporte”, resume Luiz Carlos. “Falta política social”, completa a conselheira Denise Maretti. “E não é suporte para nós. O suporte é a rede de apoio para onde podemos lançar nossos casos”, explica Leila. “A gente manda para o Caps, não tem psiquiatra”, relata. “Não temos estrutura para psiquiatria infantil”, pontua a conselheira Célia Machado Dal’Bó.

Problemática

A questão é mais complexa do que parece. Até a segunda quinzena de novembro, o Conselho Tutelar já atendeu quase 1,6 mil ocorrências. Cerca de 150 por mês. Do total, 560 são novas. E a reincidência é comum e crescente. Famílias atendidas em 2003 continuam até hoje procurando a instituição. “E a previsão é tenebrosa”, acredita Denise. “Aqui reflete como a sociedade está doente”, completa a conselheira, que já se viu obrigada a internar uma criança de dez anos por dependência química.

O estudante que agride professores ou colegas na escola é apenas o último elo de uma corrente composta por miséria, violência, fome e outras mazelas. “O agressor é agressor naquele momento, mas em todo momento anterior ele é vítima”, diz Leila. Os conselheiros são unânimes: em praticamente 100% das ocorrências existe ao fundo um problema social. “A gente chega na casa da criança e vê que aquilo já é um grito de socorro”, relata Denise.

Os erros na administração de Mogi Mirim, município que atualmente conta com quase 90 mil habitantes, foram cruciais para que hoje a cidade amargasse altos índices de violência escolar. O bairro Jardim Planalto e o distrito de Martim Francisco são prova disso. Ambas as regiões não registravam expressivo número de casos no Conselho Tutelar. Depois da instalação do Residencial Floresta, o cenário mudou.

“O Floresta destruiu o Planalto e Martim”, afirma Leila. O bairro tem todos as características da problemática periferia mogimiriana: região recente, casais jovens, famílias sem estrutura. E com um agravante. “Colocaram lá todas as famílias de todas as periferias que queriam uma casa própria, mas não ofereceram estrutura”, explica a conselheira.

O bairro Linda Chaib, o mais problemático até a criação do Residencial Floresta, também sofreu com erros em sua construção. O preço é pago até hoje. “No Linda Chaib, crianças de oito, nove anos já estão envolvidas com droga. Os adolescentes não têm para onde ir”, afirma Célia.

Estado

Procurada, a Diretoria Regional de Ensino de Mogi Mirim afirmou, em nota, que “entende que o enfrentamento à violência no ambiente escolar deve ocorrer em diversas frentes, que englobam polícia, comunidade escolar e família. A administração regional desenvolve em todas as escolas, desde 2009, o Sistema de Proteção Escolar, programa que orienta as equipes gestoras e apoia professores e alunos envolvidos em situações de vulnerabilidade”.

O órgão também explicou como buscar solucionar os conflitos no ambiente escolar. “Entre as ações do programa, está a figura dos professores-mediadores, que são educadores capacitados para criar ações preventivas nas escolas estaduais e ainda aproximar a comunidade das unidades em campanhas de prevenção à violência, racismo e outras formas de discriminação como o bullying, entre outros. Na região de Mogi Mirim são 20 profissionais”, encerra.

Por Flávio Magalhães
(publicado originalmente em Portal Digitais PUC-Campinas)

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