Uma vida dedicada ao jornalismo

Valter Abrucez é um dos grandes ícones da imprensa mogimiriana

Aos 64 anos de idade, sendo 40 deles dedicados ao jornalismo, Valter Abrucez é um dos grandes ícones da imprensa mogimiriana. Trabalhando atualmente no jornal A Comarca, o mais tradicional da cidade, acumula passagens pelos principais veículos de comunicação de Mogi Mirim e Campinas. Nesta entrevista, ele fala sobre sua carreira e sobre o papel do Jornalismo e do jornalista na sociedade.

VOCAÇÃO
Apesar de não sonhar com a carreira jornalística, o domínio da escrita determinaria sua futura profissão. “Se eu disser que tinha uma vocação, não é verdade. Eu tinha uma facilidade de texto, de escrever. Tive alguns professores de português que valorizavam muito isso. E por essa facilidade e por estímulo de amigos, eu comecei em rádio e, mais ou menos na mesma época, escrevendo alguma coisa pra jornal”, recorda Valter. “Eu sou filho de ferroviário. Meu pai era auxiliar de engenharia na então Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. E era uma coisa quase que natural: filho de ferroviário se tornava ferroviário. E eu até tive essa iniciação, mas eu era menor, nem podia trabalhar. E eu iria seguir essa carreira se não percebesse essa facilidade de escrever”.

INÍCIO
O início em Mogi Mirim se deu na década de 1960, no jornal A Comarca Esportiva, de Franco Ortiz e Orlando Pedro Bronzatto, amigos de Valter. “Eu comecei aí, era amigo do Franco Ortiz e fazia algumas coisas. Eu morava em Martim Francisco [distrito de Mogi Mirim] e escrevia algumas coisas lá e mandava para o jornal. Isso foi uma coisa bem amadorística, bem de amizade. Na rádio, não. Na então Rádio Cidade foi mais profissional, trabalhando de fato, recebendo remuneração”.

MUDANÇA PARA CAMPINAS
“Eu fui daqui [de Mogi Mirim] para Campinas em 1976. Aqui as coisas estavam sendo feitas nas condições da cidade. Éramos eu e mais um no jornal que nós tínhamos, A Tribuna, para escrever sobre esportes, polícia, política, para revisar o texto, enfim. Daí fui pra Campinas, na rádio Educadora, depois fui para o Diário do Povo. Quer dizer, saí de um jornal em Mogi Mirim que circulava uma vez por semana e fui trabalhar em um jornal que circulava sete vezes por semana, com horário, com pique diferente, com técnicas diferentes e que eram, na época, absolutamente ignoradas por aqui”, relembra o jornalista.

JORNALISMO NO INTERIOR
“O interior é uma escola interessante porque é aqui que você é mais generalista do que em qualquer outro lugar, então você lida com as situações mais diferentes. No interior tudo é difícil. Hoje é diferente, houve uma grande evolução tecnológica. Mas hoje ainda é difícil fazer jornal no interior devido às limitações, porque é uma atividade que custa caro e precisa de muita gente”, afirma.

No entanto, Valter acredita que o jornalismo que se faz em cidades menores já não é tão distante daquele das grandes metrópoles. “O interior se modernizou. Essa ausência de técnica não existe mais. Mogi Mirim, por exemplo, tem um grande privilégio nesse sentido. As técnicas foram sendo aplicadas, absorvidas. Hoje se faz jornal em Mogi Mirim obedecendo as regras com que se faz jornal em Campinas ou em São Paulo, respeitando as enormes diferenças”, diz.

FORMAÇÃO ACADÊMICA
Assim como muitos outros jornalistas de sua época, Valter não cursou uma faculdade de Jornalismo. “Eu sou autodidata. E para a época, final da década de 1960 e início da década de 1970, isso era uma coisa muito recorrente. Acontecia muito do jornalista fazer Direito, porque há uma relação de proximidade exatamente em função da questão do escrever. O Direito exige do advogado a qualidade de elaborar, argumentar, escrever. Então muito jornalista daquele tempo acabava fazendo curso de Direito e as coisas se harmonizavam e aí seguia em frente. Mais tarde vieram cursos, regulamentação da profissão, exigência de diploma… Mas aí eu já estava velho na profissão para ter tempo de um recomeço, fazer uma escola”, afirma.

Sob o ponto de vista do “aculturamento”, o jornalista admite que sentiu falta de uma formação acadêmica na área. “Uma coisa que me fez muita falta, não diria necessariamente sob o ponto de vista das questões técnicas da profissão, mas me faz muita falta no sentido de informação, de enriquecimento intelectual que eu não tive. O que eu falo, eu escrevo, as ideias que eu tenho são resultado da prática que eu fui adquirindo ao longo do tempo, do ler muito jornal, que foi uma coisa que eu fiz muito até como instrumento de qualificação. Se você ler com sentido profissional, você aprende muito”.

EXIGÊNCIA DO DIPLOMA
Embora haja uma pressão por parte de órgãos como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), atualmente não há uma obrigatoriedade do diploma universitário para exercer a profissão de jornalista. Para Valter Abrucez, a questão é menos sobre a qualificação técnica em si. “Porque o jornalista tem uma necessidade sem a qual é impossível exercer a profissão. É a facilidade de pensar, de transferir para o papel. O requisito essencial é de ter algum pendor, algum talento, digamos assim, para a profissão. Eu acho que a escola é importante sob o ponto de vista do fornecer as técnicas de elaboração. A escola não ensina a escrever, definitivamente. Ela te dá as técnicas, os caminhos. Mas o que eu acho que ela dá de mais importante é aquilo que eu disse que sinto falta, que é a intelectualização. A escola te dá conhecimento histórico e sociológico pra você ter a mínima noção. Você não precisa ser especialista em cada coisa, porque o jornalista por natureza é generalista. Então você precisa ter esse conhecimento”, afirma. “O diploma, em si, não é qualificativo, porque uma coisa é você passar no exame final e receber o canudo, outra coisa é você sair com conhecimento. Pode sair um mau jornalista da faculdade de Jornalismo com um diploma na mão”, conclui.

JORNAL IMPRESSO E INTERNET
Apesar de ter trabalhado durante seis anos na EPTV (então TV Campinas) e mais um ano na TV Bandeirantes, além de emissoras de rádio, a maior parte da carreira de Valter foi dedicada aos jornais impressos. “É o que eu mais gosto, porque ele exibe materialmente o resultado do seu trabalho. Em rádio, você fez um negócio que ficou legal, aquilo foi pro ar e acabou. Televisão é mais ou menos a mesma coisa. Jornal, não. Ele é concreto”, diz.

Perguntado se a Internet poderia engolir o jornal impresso, Valter responde que não acredita nessa possibilidade. “Eu não tenho argumento nenhum, mas eu não consigo ver isso no horizonte histórico, imaginar que daqui a 100 anos não tem mais jornal. Em menor escala ele já foi ameaçado outras vezes. Acredito que o jornal será suficientemente competente para encontrar caminhos. O impresso vai se reciclar e vai sobreviver”, acredita.

POLÍTICA
Embora sua iniciação na carreira tenha sido escrevendo sobre esportes, Valter revela que prefere trabalhar em outra área. “Eu gosto muito de política por uma razão muito simples: a política é uma ciência indispensável à sociedade. As pessoas podem falar que não gostam de política, que não votam, que não gostam de ler sobre política, mas a política está impregnada em nós. É por ela que você elege o governador, o deputado, o presidente, o vereador e é por ela que você derruba um deles. Às vezes a pessoa diz que não gosta, mas a política tem interferência direta na vida dela. O serviço mal feito na rua dela é uma questão que tem origem na política. Porque é um serviço que o Poder Público executou mal. E quem representa o Poder Público? Um político”, conclui.

CONFLITOS
Valter Abrucez acredita que a relação do jornalista com qualquer meio social sempre é frágil. “É uma relação delicada porque os interesses são conflitantes. Se aconteceu algo com determinada pessoa, essa pessoa não gostaria de ver o nome dela do jornal. O que você faz? É parte do seu dever relatar os fatos com os personagens envolvidos. Pronto, você se colocou em conflito com aquele interesse”, explica.

“O que eu digo é que a gente deve manter uma relação respeitosa, mas não promíscua. Separar bem profissão de amizade, de vizinhança. Enquanto jornalista você é jornalista. Você não pode tomar uma cerveja no bar com um político? Pode, não tem problema nenhum. Isso faz parte das relações sociais. Mas acabou a cerveja, acabou. Quando você for pro exercício da profissão, se você tomou a cerveja com ele ou não pouco importa. Hora da profissão é hora da profissão”, adverte.

IMPARCIALIDADE
Sobre a imparcialidade no jornalismo, Valter tem uma tese. “Imparcialidade não existe. Existe isenção. Por que não existe imparcialidade? Quando você dá uma opinião dizendo que fulano fez uma coisa errada, você está dando uma opinião parcial. É a sua maneira de ver aquilo, é parte. É parcial porque é sua opinião, mas ela precisa ser isenta. Se eu disse que o prefeito errou em determinado projeto, é a minha opinião. Não estou dizendo isso porque eu não gosto do prefeito, só pra dar uma opinião contrária a ele. O isento é você emitir uma opinião absolutamente desvinculada de terceiros interesses, que não deixará de ser parcial porque é opinião de uma parte”, afirma. E conclui: “O imparcial não existe, você sempre está emitindo um juízo de parte. Não pode ser desonesto. Não posso elaborar uma opinião desonesta para prejudicar ou beneficiar alguém”.

FORMADOR DE OPINIÃO
Valter acredita que ainda hoje o jornal impresso é fundamental na função de formador de opinião na sociedade. “Posso dizer uma grande besteira, mas o único formador de opinião é o impresso. Porque, como eu disse, ele é concreto. Você lê uma matéria, se não entendeu, lê pela segunda vez, pela terceira vez. O impresso te dá tempo de reflexão. Você assiste ao Jornal Nacional, as coisas são atropeladas. Elas se sucedem com uma rapidez muito grande e o conteúdo das reportagens é muito sintético. Não consigo entender que esse tipo de jornalismo tenha capacidade de formar opinião”, acredita.

Por Flávio Magalhães

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